terça-feira, 1 de novembro de 2011

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Ruy Barbosa foi Espírita?

Luciano dos Anjos e Hermínio C. Miranda
  
Já tivemos oportunidade de comentar o livro “Comunicações Mediúnicas entre os Vivos”, do cientista italiano Ernesto Bozzano, que relata e estuda algumas dezenas de casos em que o Espírito de pessoas encarnadas se manifesta através de outras pessoas encarnadas.  O fenômeno exige, ao que parece, uma mediunidade especial, ainda pouco pesquisada, mas de grande interesse cientifico.  Há manifestações espontâneas, ocorridas em plena sessão espírita, enquanto outras são provocadas da parte do médium, que solicita a presença do Espírito encarnado com o qual entra em relação, por meio da psicografia ou da tiptologia.
Segundo Bozzano, quem também possuiu essa faculdade desenvolvida em alto grau foi o famoso jornalista britânico William Stead que, na cobertura da Conferência de Haia, tornou-se amigo pessoal de Ruy Barbosa.
A propósito de Ruy, aliás, há um relato bastante curioso e não muito conhecido, que nos leva a admitir que o eminente brasileiro, se não teve suas simpatias pelo Espiritismo, pelo menos tomou conhecimento de uma parte bem importante da sua literatura e de alguns fenômenos que devem tê-lo feito pensar a sério sobre o assunto.
Ao que se sabe, sua biblioteca incluía livros declaradamente espíritas, como do próprio Bozzano, além de outros de autoria de Léon Denis, Camille Flammarion, Arthur Conan Doyle, William Crookes, Oliver Lodge, todos eles estudiosos do problema e convictos da legitimidade dos postulados espíritas.
Acha ainda o Dr. Sérgio Valle que o conhecido “Tratado de Metapsíquica”, de Charles Richet, teria sido a última obra lida por Ruy.
Por outro lado, na famosa “Oração aos Moços”, o grande tribuno brasileiro deixa entrever a sua certeza não apenas da sobrevivência do Espírito, como da comunicabilidade entre Espíritos e homens.  Teria Ruy praticado esse intercâmbio?
Pelo menos um episódio ficou documentado e perece ter tocado profundamente o coração do baiano ilustre, e se deu justamente com o Espírito do seu amigo William Stead.  O caso foi narrado, em novembro de 1952, por Ataliba Nogueira, numa conferência pronunciada em Campinas e reproduzida no “Jornal do Comércio” de 8 daquele mês e ano.
Achava-se Ruy numa estação de águas, em Minas Gerais, e já se recolhera ao leito, quando um grupo de senhoras e moças lembrou-se de propor uma experiência com o “copo” uma das formas rudimentares de comunicação mediúnica.  Formou-se o círculo, com o alfabeto disposto à volta da mesa e o copo ao centro.  A esses preparativos assistia, meio irônico, o historiador Batista Pereira, genro de Ruy.  Ataliba Nogueira, devido à sua posição religiosa, reprova a “brincadeira”.  De repente, porém, Batista Pereira, de pé, observa que o copo denotava “alguma inquietação”.  Em pouco, entrou a indicar as letras, que alguém foi anotando, sem saber ainda ao certo o que sairia dali.  Por fim, decifraram o enigma: tratava-se de uma mensagem, em inglês, dirigida a Ruy Barbosa.  A coisa era tão insólita que, depois de alguma hesitação, o próprio Batista Pereira opinou que deveriam levar o caso ao conhecimento de Ruy.  O Conselheiro atende-os à porta dos seus aposentos, em pijama, e lê a mensagem, visivelmente emocionado.
- É o estilo dele – exclama -, o estilo perfeito.  E o assunto!  O mesmo que conversamos em nossa despedida em Haia.  A mensagem somente poderia ter uma origem – William Stead.
Naquele dia, os jornais noticiaram que Stead havia morrido no trágico naufrágio do navio “Titanic”.  Viera, pois, desembaraçado do corpo físico, trazer ao seu amigo brasileiro o testemunho da sua sobrevivência.
Ataliba Nogueira conclui a narrativa declarando, algo perplexo, que Ruy “acreditava nestas histórias do Espiritismo”.
E como não haveria de crer se submetera seus postulados básicos ao exame competente de sua inteligência excepcional?

Fonte: Livro “Crônicas de Um e de Outro – De Kennedy ao Homem Artificial”

 Fonte: http://www.terraespiritual.locaweb.com.br/espiritismo/artigo2054.html
Acesso: 04/01/2011

domingo, 26 de dezembro de 2010

O Espiritismo em Cuba

Washington Fernandes
(Seção em parceria com a "Liga de Historiadores e Pesquisadores Espíritas"
Comitê Editorial da LIHPE)

A história desconhecida de um país onde o Movimento Espírita foi muito atuante

O Espiritismo completará seu sesquicentenário (150 anos) em 2007, e precisamos conhecer suas raízes e desenvolvimento em todos os lugares. Por isso, vale a pena saber seu histórico num lugar em que pouco se conhece sobre ele, mas que um dia foi um dos mais destacados e atuantes do Movimento Espírita internacional. Trata-se de Cuba, 111.OOOkm2, 11 milhões de habitantes, atualmente com taxa de analfabetismo de 4%, país sem religião oficial, e que foi uma colônia espanhola até 1898, passando por curta dominação americana até 1902, quando o país se tornou independente; mas os EUA continuaram por muitos anos a exercer constante influência política na Ilha. Em 1959, através de um golpe, assumiu o governo Manuel Urtia, continuando a instabilidade no país, e em seguida Fidel Castro (1927) assumiu o governo, com o apoio comunista da URSS, acabando com todos os movimentos religiosos do país, e levando à dissolução da Confederação Nacional Espírita de Cuba e de todo o Movimento Espírita oficial, em 1963. Mas antes deste fator político, o país foi um dos mais ativos que existiram em todo o mundo na adoção e prática do Espiritismo.
Este fato extraímos do registro de um grande trabalhador que lá viveu mais de cinqüenta anos, o Sr. Luís Guerrero Ovalle (1895-1990), que nasceu em Léon, Espanha, e em 1906 se transferiu com a família para a Argentina, onde estudou e seu pai trabalhou como notário público. Em 1909 ele se mudou para Cuba, continuando os estudos e passando a trabalhar na área bancária, tendo sido administrador de vários bancos neste país, onde residiu até 1960, quando se transferiu para Miami/EUA. Aos 21 anos, plenamente adaptado à cultura cubana, ingressou no Movimento Espírita, pois começou a ler e estudar O Livro dos Espíritos, quando sua mãe desencarnou. Exerceu cargos em várias instituições espíritas, colaborou em muitos periódicos e traduziu ao espanhol obras mediúnicas de Francisco Cândido Xavier (1910-2002), Divaldo Franco (1927-), Yvonne A. Pereira (1900-1984) e outros. Nos Estados Unidos, o Sr. Ovalle foi fundador da Ciência Espiritualista Kardeciana e graças a ele pudemos tomar apontamentos da história do Espiritismo em Cuba, conforme está publicado no periódico Credo Espírita, fundado em 1981, e editado pela Libreria Kardec (Ano IV, Num 2, Miami, março de 1985 e ss.).

As fases da história espírita no país

Inicialmente, há notícias de que no período colonial os índio Tamos e Siboneyes tinham o hábito de produzir vários fenômenos espíritas, mas a partir de 1856 é que começaram a surgir os primeiros núcleos mediúnicos nas cidades de Havana, Sagua La Grande, Sancti Spiritus, Manzanillo, Caibarien e Santiago. A partir de 1870 começaram a se constituir um grande número de periódicos espíritas, como La Luz de Ultratumba (1874), La Ilustración (1878), Luz de los Espacios (1881), La Antorcha de los Espírítus (1882), El Buen Desejo (1884), La Luz del Evangelho (1885), La Buena Nueva (1886; La Alborada (1888), La Nueva Alianza, de Cienfuegos. As instituições se estruturaram e, em trinta anos, por ocasião do Primeiro Congresso Internacional Espírita, em 1888, em Barcelona, três cubanos estiveram presentes e cinco instituições se fizeram representar: Centro La Reencarnación, Havana, Centro El Salvador, de Sagua La Grande, Sociedad Espiritista, de Matanzas, Centro Lazo Unión, de Cienfuegos, Centro San Pablo de Malpáez, Quemado de Güines. Para dar-nos um referencial, desconsiderando a Espanha, país-sede do Congresso, e a França, berço do Espiritismo, Cuba foi o país que teve maior representação no evento, juntamente com o México, pois quase todos tiveram só uma entidade representante, dois países tiveram dois grupos, a Bélgica teve somente quatro. A admiração pelos cubanos aumenta se compararmos o número de periódicos espíritas que enviaram adesão a este primeiro encontro internacional pois, novamente desconsiderando a França e a Espanha (países dos quais somente quatro e nove periódicos aderiram, respectivamente), Cuba foi também o país que mais se fez representar, com três periódicos. Os outros países tiveram somente um ou dois periódicos representados, e só a Itália teve também três. Estes números demonstram que os cubanos eram muito conscientes e atuantes na própria organização e na divulgação espírita.

Federação Espiritista de Cuba

Em 22/7/1890 foi fundada a Federación Espiritista da Ia Isla de Cuba (Federação Espiritista da Ilha de Cuba), reunindo vinte e três instituições do país, considerando que não puderam participar as instituições de Matanzas e Oriente. O objetivo da Federação estava bem claro no artigo primeiro de seu Regulamento: A Federação tem por objetivo a união de todos os centros espiritistas de Cuba, para estender a propaganda do Espiritismo por meio da palavra, escrita ou falada, e a prática de toda virtude pública e privada. A diretoria da Federação denominava-se Conselho Regional, e nos anos seguintes aumentou muito o número de instituições e periódicos no país, a tal ponto que, por ocasião do Primeiro Congresso Nacional Espiritista de Cuba, no Teatro Payret, em 1920, houve 562 Delegados, 113 Centros Espíritas e 336 representações pessoais. Neste Congresso lançaram-se as bases para que, em 1922, fosse criada a Federação Nacional Espiritista da Cuba independente que, em 1941, passou a denominar-se Confederação.
Os cubanos marcaram presença no Congresso Internacional Espírita de Barcelona, em 1934, e em 1935 deram início a uma série nunca vista de Concentrações Espíritas Nacionais, que a partir de 1944 passaram a chamar-se Congressos, tendo se realizado vinte e seis eventos, de 1935 até 1963, o que significa que houve praticamente um por ano, abrangendo vários lugares da Ilha (Santa Clara, Camagüey, Havana, Matanzas, Santiago de Cuba, Villa de Guanajay Bayamo, Cóton e Pilar del Rio). Na 8ª Concentração, em 1942, decidiu-se criar a importante instituição social Clínica del Alma, em Camagüey, hospital que objetivava a cura e recuperação de obsidiados, a qual até 1966 exerceu um importante papel para a ajuda aos necessitados, quando por Decreto foi incorporada ao Ministério da Saúde Pública. Destacamos também que Cuba teve vários programas de rádio em Havana, desde 1941, como O Psiquis e o Doutrina Espírita, na rádio Alvarez.

Importantes trabalhadores espíritas cubanos

Naturalmente, impossível assinalar todos os grandes trabalhadores de Cuba, em face da pujança de seu histórico, com muitos periódicos e sociedades. Os nomes destes valorosos tarefeiros são totalmente desconhecidos dos espíritas de hoje, e por isso fazemos questão de citar alguns: no século XIXJosé Martí (1853-1895), líder revolucionário e autonomista da ilha, que passou por vários países da América Central, EUA e Paris, venerado ainda hoje pela população cubana, por causa de sua atuação em prol da independência do país, e que tinha convicções espíritas; os Srs. José A. Perez Carrión, fundador do periódico La Rustración; o grande conferencista Jose Jimenez Torres, que foi um dos criadores da Federação Espiritista de Cuba, em 1890, a qual teve também a participação de Doroteo Venero, seu primeiro Presidente, Miguel MuñozJosé R. Montalvo e Francisco Castillo Catalina de Güines, todos representando diversas sociedades existentes; Eulogio Prieto, que foi o único sul-americano pertencente às Comissões Organizadoras dos 1º e 2º Congressos Internacionais Espíritas (Barcelona; em 1888, e Paris, em 1889), estando presente nestes eventos com os outros cubanos Don Tomás de Oña e Don Juan GarayoMiguel Rubert e Santiago Cañizares, fundadores do periódico La Buena Nueva, em 1886, o estudioso do tema psiquismo filosófico, José Maria Alfonso;Miguel Chomat, Felix Ríos e José Ferrera, todos líderes de organizações; o juiz correcional Marcos Garcia. A partir de 1895, o país teve que parar suas atividades espíritas, em face dos conflitos internos para a sua emancipação, mas em 1902, com a independência de Cuba, lentamente um grupo de idealistas e dez Centros Espíritas foram retomando as atividades doutrinárias.
Assim, no século XX, destacamos o livro espírita La Filosofia Penal de los Espírítistas, com edições também na Argentina e no Brasil, do escritor, antropólogo e criminologista Fernando Ortiz (1881-1969), que curiosamente se declarava "não-espírita" (!!); Francisco Armenteros, Francisco M. González Quijano (1862-1926), que trabalhou comJosé Martí, Alberto Peralca, Aquiles Ortega e o escritor Don Salvador Molina, que esteve no Congresso de Barcelona, em 1934, todos da Sociedade Espiritista de Cuba, promotora do 1°Congresso Nacional do país, em 1920, o qual recebeu felicitações até do Instituto de Metapsíquica de Paris; Fidel de Céspedes, Francisco M. Gonzáles, o oradorMiguel Santiesteban Barciela (desencarnado em 1979, foi Presidente da Confederação Espiritista de Cuba, desde 1936, e também da CEPA, de 1953 a 1956) e Leopoldo Lópes, que participaram da criação da Federação Espírita da Cuba independente, em 1922; o promotor Manuel Garcia Consuegra, Ramón Garcia Martí, Plácido Julio Gonzalez, diretor do periódico Rosendo, todos que muito trabalharam para a primeira Concentração Espírita, em 1935; o escritor, poliglota e articulista Antônio Soto Paz Basulto (1889-1943); Ramón Garcia Martí e o advogado Armando Labrada Canto, fundador da Clínica del Alma e ambos Presidentes das 1ª e 2ª Concentrações Espíritas (1935 e 1936), que teve Hortênsia Naranjo de Casas como secretária correspondente; o Sr. Armando foi Presidente também do 20° Congresso; Benito Carballo y Arnau, Presidente da 4ª Concentração, em 1938, que teve o médium Roberto Carmona y Cuesta como secretário e Ernesto Prieto Figueroa, como tesoureiro; o médium do Grupo Rosendo Juan Francisco Casanova, ondeCarlos Millares era o Presidente; o médium Angel Manuel Balbona y Pedroso, do Grupo Francisco de Paula; Medardo Lafuente Rubio (?-1939), do núcleo de Camagüey, homenageado pelas sociedades da cidade pelo seu incansável labor espírita; na 6ª Concentração Espírita, em 1940, o Sr. Luís Ovalle fez parte da Comissão Organizadora, e destacamos neste tempo o profícuo trabalho da União das Mulheres Espíritas, em Havana e Matanzas, tendo como Secretária-GeralOfélia Dominguez, servindo de modelo para criação da Federação Argentina de Mulheres Espíritas, em 1950, pela Sra.Josefina de Rinaldi (1909-1952); em 1946, no 12° Encontro, publicou-se um livro com um histórico de todas as Concentrações cubanas; no 14°- Congresso, em 1948, comemorou-se o Centenário do Espiritismo, no Salon del Círculo de Bellas Artes e palestra do orador Dr. Ignacio Travieso Figueras, celebrando o feito das Irmãs Fox, nos EUA; no 20° Congresso, em 1955, enviou representação o Governador de Camagüey, e o chefe do Regimento Militar, com a presença da Banda Municipal da cidade. Em 1957, houve uma grande comemoração pelos cem anos do lançamento deO Livro dos Espíritos, ocasião em que a Federação Espírita Brasileira e La Editorial Constancia, da Argentina, venderam exemplares deste livro aos cubanos por preço ínfimo. A Sra. Eva Guevara Arias, ativa trabalhadora da Federação Provincial do Oriente, até 1963, ano em que se celebrou um Congresso Espiritista Extraordinário, em Regla, Havana, o qual dissolveu a Confederação Espiritista, em face da situação política da Ilha.

Conclusão

Devemos registrar que foi aprovada no Congresso de 1920 uma moção pela qual se estabeleceu o dia 31 de março como o Dia Espírita, por iniciativa do Centro Espírita Luy y Caballero; em outubro de 1953, realizou-se o Terceiro Congresso Espiritista Panamericano, em Havana; em 21/4/1957 foi erigido em praça pública o busto de Allan Kardec, também em Havana, por iniciativa da Associação Espiritista Enrique Carbonell, mas com a revolução comunista o mesmo foi retirado da praça. O Sr. Dante Culzoni Soriano, Presidente da CEPA, enviou carta ao Presidente de Cuba, em 1972, protestando contra a retirada do busto de Allan Kardec da praça e pedindo sua reinstalação, mas não obteve resposta. Uma pessoa, o Sr. Alfredo Duran, em Havana, teria conseguido recuperar esta peça, a qual teria ficado em sua posse. Com dificuldade, conseguimos localizá-lo por telefone em Havana, e ele confirmou a história, informando que o busto se encontra em sua residência, guardado com veneração. Tendo em vista uma reportagem saída na Revista Internacional de Espiritismo, que falava sobre Cuba, contatamos por telefone Clóvis Portes, brasileiro, residente em Belo Horizonte e Ipatinga/MG, que informou que nas oito vezes em que esteve em Cuba, nos últimos dez anos, ele lá encontrou discretas sociedades espíritas, não oficiais, muitas praticando um tipo de mediunismo caribenho, e nestas viagens ele vem tentando levar uma vivência do Espiritismo fiel aos princípios de Allan Kardec.
Enfim, pela precocidade com que o Espiritismo surgiu em Cuba, em 1856, antes do próprio advento da Codificação, pelo número de sociedades e periódicos espíritas nos séculos XIX e XX, que o colocam como um dos primeiros em nível internacional; pelas incomparáveis realizações no tocante a Congressos e Concentrações Espíritas, coisa nunca vista em nenhum país do mundo; por estabelecer por moção, em 1920, o dia 31 de março como o Dia Espírita, o que só depois de décadas algumas cidades começaram a fazê-lo; por ter erigido na Capital um busto de Allan Kardec em praça pública, em 1957; pelos programas espíritas de rádio na década de 1940; por movimentar até as autoridades civis e militares em seus eventos, da Europa e América, por estes motivos Cuba possui uma grande riqueza histórica a ser descoberta e relatada. Contatos estão sendo estabelecidos com Clóvis Portes e o Sr. Alfredo Duran para se tentar levar oficialmente grandes oradores espíritas brasileiros a Cuba, ajudando a plantar as sementes para o ressurgimento dos ideais espíritas nesta Ilha, cujo histórico, apesar de desconhecido hoje, muito dignifica a Doutrina Espírita...
Washington L. N. Fernandes
(Publicado no Boletim GEAE Número 460 de 29 de julho de 2003 )


Acesso: 26/12/2010

Espiritismo ressurge em países da Europa Central


Josef Jackulak, dirigente da Sociedade para Estudos Espíritas Allan Kardec, de Viena (Áustria), comenta as perseguições contra o Espiritismo na segunda metade do século XX e o seu ressurgimento em países da Europa Central

Reformador: Como surgiu a Sociedade Espírita, em Viena?
Josef: A Sociedade para Estudos Espíritas Allan Kardec (Verein für spiritistische Studien Allan Kardec – VAK), de Viena, teve seu início em 1987, quando dois irmãos brasileiros espíritas, Túlio e Lena, que estudavam em Viena, sentiram saudade do Movimento Espírita de seu país, e começaram a estudar as obras básicas de Allan Kardec. Casualmente, nós os conhecíamos, e fomos convidados a participar desses estudos. Embora católico, aceitamos o convite pela curiosidade, pois a questão dos Espíritos sempre nos interessou. No outono do mesmo ano, os dois irmãos viajaram a Paris para se encontrar com o orador Divaldo Pereira Franco, e convidaram-no
para vir à Áustria. No verão de 1988, em companhia de Nilson de Souza Pereira, Divaldo Franco veio proferir a primeira palestra espírita, depois da 2a Guerra Mundial, em Viena. Desde então, apoia a formação do grupo, visitando-nos anualmente. Em agosto de 1989, visitou-nos o orador José Raul Teixeira, apoiando-nos também. Os irmãos Túlio e Lena voltaram para o Brasil e, apesar de nos sentirmos despreparados, continuamos os estudos em nossa casa em companhia de amigos brasileiros e austríacos. Quando nos sentimos mais seguros, em dezembro de 1999, registramos oficialmente a Sociedade e realizamos a primeira assembleia no dia 29 de abril de 2000.
Reformador: Quais são as atividades do VAK?
Josef: Desde o começo, a Sociedade dedica-se ao estudos das obras básicas do Espiritismo. Estudamos, várias vezes, O Livro dos Espíritos, O Evangelho segundo o Espiritismo e O Livro dos Médiuns, complementando-as com O Céu e o Inferno e A Gênese, e estudando também obras psicografadas por Francisco Cândido Xavier, Divaldo Pereira Franco e José Raul Teixeira. Durante estes anos tivemos diferentes formas de organizar nossas atividades. Realizamos semanalmente: a reunião “ponto de luz”, que consiste de breve leitura e comentário do Evangelho, de orações em favor dos necessitados, por acontecimentos do momento
e pela paz mundial. Ela serve, ao mesmo tempo, como preparação para a reunião mediúnica, que se inicia em seguida; reunião para estudo mediúnico, em que adotamos o livro Qualidade na Prática Mediúnica, do Projeto
Manoel Philomeno de Miranda (Editora LEAL). Segue-se a palestra pública, cujo tema é referente ao estudo de O Livro dos Espíritos, e da obra de Joanna de Ângelis, O Despertar do Espírito. Após a palestra há aplicação de passes. A terceira reunião contempla o atendimento fraterno, seguido de palestra pública sobre O Evangelho segundo o Espiritismo e sobre o livro Amor Imbatível Amor, de Joanna de Ângelis. Duas vezes por mês, oferecemos um encontro para as crianças, a fim de atender os futuros adultos e, quem sabe, nossos futuros frequentadores e trabalhadores. No último sábado de cada mês, depois da palestra, realizamos o encontro fraterno, onde oferecemos lanche. Temos visitado os países vizinhos: a República Tcheca e a Eslováquia.
Reformador: Vocês têm apoiado a formação inicial de grupos em países vizinhos?
Josef: O VAK colabora com países vizinhos. No verão de 1989, ainda no tempo da “cortina de ferro”, durante a estada de Divaldo Franco e de Nilson de Souza Pereira, planejamos visitar a antiga Tchecoslováquia no ano seguinte. Pensávamos em reunir, em Praga, um grupo de pessoas na casa de um amigo para falar sobre o Espiritismo. Seria um teste da coragem, pois como tcheco, refugiado do comunismo, conhecia o risco e sabia da capacidade da polícia secreta da antiga Tchecoslováquia. Felizmente, com a queda do comunismo em novembro de 1989, pudemos, sem preocupações, visitar Praga em 1990. Foi um momento histórico. Alugamos, através de uma amiga, a sala de um cinema, e organizamos palestras nos dias 2 e 3 de junho. A partir desta data, voltamos, a cada ano, a Praga. Em 1992 organizamos uma palestra na cidade de Brno (República
Tcheca) e, em 1994, visitamos pela primeira vez a cidade de Bratislava, agora capital da Eslováquia. Anualmente, organizamos palestras nessas três cidades, convidando Divaldo Pereira Franco, José Raul Teixeira, Juan Antonio Durante e, recentemente, o diretor do CEI e da FEB Cesar Perri. Em 2003 organizamos, junto com os amigos da Hungria, a primeira palestra em Budapeste, por Divaldo Pereira Franco. Em 2006 visitamos, com o mesmo orador, pela primeira vez, Varsóvia, capital da Polônia. No outono de 2003, formamos um núcleo espírita em Bratislava (Eslováquia), junto com Rejane Spiegelberg-Planer, o qual visitamos mensalmente. Em 2005, com Rejane, formamos outro grupo na cidade de Brno (República Tcheca), que também visitamos mensalmente. Em ambas as cidades estudamos as obras de Allan Kardec, com o objetivo de criar sociedades espíritas
autônomas. Não podemos visitar Praga mensalmente, mas já organizamos algumas visitas para seminários e palestras na cidade. Nestas ocasiões tivemos, em nossa companhia, a amiga Edith Burkhard, da Suíça. Aguardamos o dia de podermos criar em Praga uma célula espírita. O VAK está apoiando a formação de novos grupos na Áustria. Em 2007, promovemos a primeira palestra de Divaldo Franco, em Debant,
no Tirol. Além desses países, o VAK organizou, sob a liderança de Rejane Spiegelberg-Planer, palestras sobre o Espiritismo junto à Organização das Nações Unidas. Como fruto destas palestras, foi efetuada, em 2007, a primeira palestra espírita em Istambul, na Turquia, proferida por Divaldo Pereira Franco. Reformador: Com os regimes políticos anteriores houve dificuldades para o Espiritismo? Josef: Os regimes políticos anteriores acabaram com o Espiritismo, que pulsava livremente antes da 2a Guerra Mundial na antiga Tchecoslováquia. O pouco que sobreviveu ao nazismo foi destruído pelo comunismo.Nesse período de regime totalitário, havia vigilância em todas as atividades, através da sua bem formada polícia secreta. As religiões não eram bem vistas e eram consideradas inimigas do regime opressor utopista e materialista. As casas espíritas foram confiscadas e qualquer atividade espírita era proibida; algumas pessoas foram encarceradas, ou constantemente vigiadas. No entanto, a fé foi sempre mais forte do que o medo, e os espíritas continuaram a se encontrar ilegalmente, nas suas casas, onde a privacidade permitia, ou nos passeios na natureza e florestas. Conhecemos ainda alguns sobreviventes dessa opressão, que são verdadeiros heróis.
Reformador: Tem algum exemplo de lutas desse período anterior?

Josef: Ouvi falar de vários casos, mas pessoalmente conheço somente alguns. Entre estes, tenho contato, até hoje, com Vladimir Sláde/ek, que chamamos carinhosamente Vlado. Nosso amigo é verdadeiro exemplo de coragem. Apesar de ser constantemente perseguido e ter sofrido várias agressões da polícia, nunca abandonou o seu ideal espírita. Escondeu no sótão as obras de Kardec, que foram depois roubadas pela própria polícia, que se utilizou da doença de sua esposa, aplicando-lhe remédios e injeções, no hospital, fazendo-a louca, provocando seu ódio contra o marido e obrigando-a a denunciá-lo.O casamento e a família foram destruídos. Vlado fala muito bem alemão e esperanto, de forma que já no tempo comunista começou a traduzir ilegalmente livros espíritas. Hoje, conta com mais de 100 livros traduzidos, incluindo os psicografados por Divaldo Pereira Franco e Francisco Cândido Xavier, entre outros.Contou-nos Vlado que, no período comunista, recebeu em forma de cartas os livros Depois da tempestade e Grilhões partidos, psicografados pelo médium Divaldo Pereira Franco, traduzidos em forma de resumo por sua amiga Helena Stavelová, que viveu no Brasil. Resolveuentão juntar as páginas, datilografá-las e copiá-las em casa, para poder distribuí-las gratuitamente. Foi por meio desta senhora, com a qual eu mantinha correspondência, através de Divaldo, que conhecemos Vlado, e o convidamos para a primeira palestra de Divaldo Franco em Praga. Desde então, Vlado ajudou-nos na propagação
das palestras, gravando-as, transcrevendo-as e distribuindo-as pelo correio para seus amigos. Vlado, hoje, está com 80 anos, praticamente paralisado, vive numa casa para idosos, mas continua traduzindo os livros e servindo à Humanidade, um exemplo para todos nós.
Reformador: Quais as necessidades espirituais do povo da Europa Central?

Josef: Acredito que, em geral, as necessidades do ser humano são iguais no mundo inteiro. A vida espiritual é oprimida pela vida material. Vivemos numa época de rápido e grande desenvolvimento nas áreas tecnológica e científica, demonstrando o grande potencial do intelecto no ser humano. Até bem pouco tempo atrás, na Europa Central, tivemos guerras terríveis, como na antiga Iugoslávia, comparáveis à barbaridade nazista, provocando
sofrimentos que até hoje sentimos. Há falta de desenvolvimento moral. A lição cruel da 2a Guerra Mundial não foi suficiente. Apesar da religiosidade e das várias religiões existentes na Europa Central, não foi possível
manter a paz. Na parte oriental da Europa a ideia comunista oprimiu a vivência da religião, mas não ofereceu nada para substituí-la e alimentar o espírito, criando pessoas materialistas. O ideal seria despertar para a vida espiritual. Isso não é possível no momento, na forma que desejaríamos, mas seria bom se as pessoas vivessem bem a sua religião, a essência da mensagem do Cristo.

Reformador: Qual o impacto da mensagem espírita em sua vida?

Josef: O Espiritismo criou em mim outro tipo de fé, que se baseia na razão, em vez de ser cega. Assim, sou muito grato ao Espiritismo por ter-me orientado, e devo-lhe muito. Em nome do VAK, desejamos expressar aos leitores de Reformador e aos irmãos espíritas, no mundo, muita paz e felicidade na semeadura do bem, em nome do nosso Mestre Maior, Jesus.

Acesso: 26/12/2010